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China e Brasil: parceiros até quando?

A China vem ocupando espaços importantes na economia global. Assumiu o posto de maior exportador mundial já no final do último século, adotando uma estratégia diferenciada para expandir sua participação na economia global, que não se restringe às relações comerciais. O país vem apostando em uma fórmula que combina a inserção comercial com o investimento direto de prazo mais longo nos principais países parceiros. Essa forma de atuação tem chamado atenção particularmente no desenvolvimento de suas relações econômicas com os países da América Latina.

      
Os problemas decorrentes de crises profundas de natureza política e econômica em várias economias da região não preocupam os chineses. Segundo o Ministério de Relações Exteriores brasileiro em Pequim, a América Latina e o Caribe têm sido o segundo maior destino de seus investimentos, perdendo apenas para os vizinhos asiáticos. 


Os dados que caracterizam as relações econômicas entre China e América Latina são reveladores. Atualmente, a China aparece como segunda maior fonte de investimento estrangeiro na região, alcançando um patamar de US$ 100 bilhões voltados à manutenção de não menos que 100 projetos de infraestrutura, incluindo desde a geração de energia solar até uma base de monitoramento espacial na Patagônia. Entre 2001 e 2016, o comércio bilateral entre China e América Latina multiplicou-se por 23. Em países como Brasil, Chile e Peru, o volume de comércio com a potência chinesa já supera o mantido com os Estados Unidos.


Tem sido notória também a maneira diferenciada como os chineses vêm tecendo relações de mais longo prazo na América Latina. Conforme ressaltado por Frederic Puglie em interessante artigo do Washington Times, eles não discriminam os projetos quanto ao tamanho do aporte necessário e, possivelmente pelo fato dos recursos terem como origem companhias e bancos estatais (que não precisam prestar contas a acionistas), trabalham com uma expectativa de ganhos de mais longo prazo, estabelecendo metas para períodos de décadas.     


Aos poucos, portanto, sem vincular a participação econômica a qualquer ingerência na política local - ao contrário da diplomacia norte-americana -, os chineses vêm se estabelecendo de forma oportuna e confortável para os países latino-americanos. 


No que se refere ao Brasil, o aporte de investimentos chineses em 2016, período em que se deflagrou uma crise econômica e política das mais acentuadas no País, foi da ordem de US$10 bilhões, o que representa, curiosamente, cerca de um terço do estoque de investimentos acumulados pela China no País. A abordagem estratégica sugere que economias fragilizadas são consideradas alvos particularmente interessantes para o país. No caso brasileiro, o interesse é acentuado pelo seu enorme potencial em produzir alimento para o mundo e matéria-prima mineral. Além disso, o país tem-se mantido bastante isolado de outros países. Não participa, atualmente, de praticamente nenhum acordo regional ou bilateral expressivo. 


Desde meados dos anos 1990, o governo brasileiro vem apostando todas suas fichas no multilateralismo comercial via OMC. Esta última tem dado lugar, no entanto, a um rápido avanço de mega-acordos regionais e bilaterais. Parece cada vez mais remota, portanto, a perspectiva de uma integração brasileira em negociações de livre comércio com economias mais estáveis e desenvolvidas como Estados Unidos e Europa, que não abrem mão de proteger sua agricultura. O Brasil, por sua vez, vem mantendo sua economia praticamente fechada para a concorrência de manufaturados e industrializados, frustrando qualquer iniciativa de aproximação competitiva para alavancar o desenvolvimento econômico do país.


Principal parceiro comercial do Brasil desde 2009, quando superou os Estados Unidos, a China tem sido o maior cliente do País no exterior. Em 2016, o Brasil exportou US$35,9 bilhões para a China, sendo que 44% deste montante deve-se exclusivamente às exportações de soja, 19% à exportação de ferro e 12% à exportação de petróleo bruto. A China, por sua vez, exportou US$30 bilhões para o Brasil, sendo que a composição dessa pauta exportadora é bastante diversificada e composta quase que integralmente por produtos manufaturados. O setor que agrega o percentual mais elevado é o de telefonia, responsável por apenas 6,5% do total. 


São claros os benefícios potenciais de uma evolução na parceria com a China, tanto para o Brasil, como para a América Latina. No entanto, a relativa complexidade, particularmente das economias brasileira e chinesa, requer mudanças estruturais para assegurar que as relações comerciais e financeiras sigam equilibradas entre os países. Os números do comércio mostram que embora ainda superavitário, o Brasil tem suas exportações restritas a poucas commodities - produtos de baixo valor tecnológico, cujos preços são influenciados por variações do clima e do mercado – o que, via de regra, reduz o volume que pode ser importado por unidade exportada ao longo do tempo. Esse problema tem sido recorrente no Itamaraty e um reposicionamento da atual forma de complementariedade econômica é de interesse brasileiro. Pode ser mais difícil, no entanto, tentar deslocar as exportações brasileiras do pivô de matérias-primas que aumentar a abrangência das negociações para que se desenvolvam relações equilibradas e persistentes. Será hora de tentar um primeiro grande acordo comercial com a China? 

 

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