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Coordenação do sistema agroindustrial do leite é o maior desafio do setor

Há algum tempo, a percepção que se tem é de que o sistema agroindustrial do leite (SAG) avança em corda bamba no Brasil. O desequilíbrio entre oferta e demanda tem se tornado uma constante “pedra no sapato” do setor, resultando em grande volatilidade de preços no mercado interno. A recessão da economia abalou seriamente o consumo nos últimos anos.

 

Não se pode esquecer, no entanto, que estamos falando de um gigante. Para se ter ideia, o valor bruto da produção agropecuária (VBP) do leite aumentou 8% de 2016 para 2017, chegando a R$ 29,4 bilhões, ou seja, 15,9% do VBP total da pecuária. O Brasil é o quinto maior produtor de leite do mundo. E, diante da produtividade média de apenas 4,5 litros/vaca/dia, fica evidente que o Brasil ainda tem enorme potencial para ir além. O que falta, então? Certamente, melhorar a coordenação entre os segmentos que compõem o SAG do leite – ou seja, os segmentos de insumos, produtores, cooperativas, indústrias e consumidores.

 

A maior coordenação entre os segmentos de um SAG direciona a ação dos agentes para alcançar objetivos comuns e promove maior competitividade, à medida que eleva a eficiência nas transações que estes executam com fornecedores, parceiros e clientes. No caso do leite, observa-se que a organização da cadeia se elevou expressivamente nos últimos cinco anos, seguindo os caminhos observados em outros mercados agropecuários, como na bovinocultura de corte.

 

Buscando diminuir os riscos envolvidos na comercialização e aumentar a transparência, o setor tem recorrido ao uso, cada vez mais crescente, de indicadores de preços nas negociações entre produtores, cooperativas e indústrias. Consequentemente, os contratos de compra e venda também se expandiram, estimulando relações de médio e longo prazos entre os agentes.

 

Desse modo, os Indicadores de preços do Cepea (Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada) têm assumido importante papel na articulação entre os segmentos do SAG. Atualmente, o total de leite negociado das empresas amostradas pela pesquisa do Cepea nos estados de Goiás, Bahia, Minas Gerais, São Paulo, Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul corresponde a cerca de 45% do volume da Pesquisa Trimestral do Leite, do IBGE. Essa grande representatividade do Indicador é resultado de um esforço em conjunto, dependente da coleta de informações de mais de 200 agentes por mês. Assim, observa-se que a pesquisa mensal de preços do leite pago ao produtor do Cepea ganha cada vez mais visibilidade, adesão e utilização, possibilitando a tomada de decisão e planejamento dos agentes do setor.

 

Acompanhando as mudanças no SAG do leite, novas demandas têm surgido a fim de melhorar o Indicador do leite ao produtor. Nesse sentido, a Organização das Cooperativas Brasileiras (OCB) e a Viva Lácteos (Associação Brasileira de Laticínios) se uniram para viabilizarem mudanças metodológicas junto ao Cepea. Nesta parceria, será implementada uma nova forma de coleta de dados, desagregada, discriminando dados por produtor. Assim, também poderão ser desenvolvidas informações mais estratégicas para os parceiros, como médias de preços (regionais e estaduais) para sete estados de produção. Além disso, o novo formato do Indicador possibilitará antecipar os resultados aos parceiros para o 10º dia útil do mês. As modificações na metodologia já começaram a ser estruturadas em fevereiro, devendo ser efetivamente implementadas ainda neste ano. O desafio, agora, é ampliar a rede de colaboradores para dirimir, ainda mais, as assimetrias de informações e viabilizar a divulgação de médias de preços para outras importantes mesorregiões.

 

Como resultado, o Cepea espera gerar dados mais estratégicos para o setor e contribuir para o processo de coordenação do SAG do leite, que vem ganhando força ano a ano. Aliás, se houve algo de positivo em 2017 foi justamente o sinal de que o setor caminha para um outro nível de organização. O maior espaço na mídia, a crescente procura dos agentes por informações, as discussões acerca dos gargalos produtivos e comerciais criaram um ambiente institucional favorável para que os segmentos se alinhassem em relação aos desafios a serem enfrentados.

 

Hoje, estão mais claras as necessidades de viabilizar investimentos e aumentar a produtividade dentro da porteira, de elevar a qualidade da matéria-prima, de impor mecanismos de transparência das negociações, de elevar o nível de gestão de fazendas, cooperativas e indústrias, de estimular o consumo de lácteos no Brasil, de expandir as negociações com o mercado externo e de criar políticas públicas de longo prazo para o setor. São muitas as frentes a serem abordadas, evidenciando, portanto, que a diminuição das fragilidades da cadeia exige articular e encadear esforços conjuntos.

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