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Emprego feminino no setor sucroenergético evolui em qualidade, mas participação ainda é baixa

Estudo divulgado pelo Cepea em julho de 2018 (veja mais aqui) mostrou que, de 2000 a 2016, foram observadas mudanças relevantes no perfil dos trabalhadores do setor sucroenergético.

 

Diante das diversas transformações pelas quais passou o setor – como a desregulamentação estatal no fim da década de 90, o surgimento dos veículos bicombustíveis, a crise, o processo de mecanização, entre outros aspectos –, foi verificada uma importante queda no número de total de pessoas ocupadas no setor. Por outro lado, nota-se uma mudança significativa no perfil dessas pessoas em direção ao trabalho mais qualificado (maior instrução) e melhor remunerado.

 

Constatou-se que, entre 2008 e 2016, houve redução de 45,7% no número de empregos nas lavouras de cana e diminuição de 5,1% nas usinas (ocupações industriais e administrativas). Porém, a remuneração média real recebida pelos trabalhadores aumentou 39,7% no campo e 17,4% na agroindústria canavieira. Enquanto o número de pessoas trabalhando no setor com menos de 10 anos de estudo caiu 52%, para os trabalhadores com escolaridade superior a 10 anos de estudo, houve aumento de 22%. 

 

Neste contexto, é interessante também lançar foco sobre a questão de gêneros, avaliando-se a representação feminina neste setor e evidenciando-se a contribuição da atividade na redução de desigualdades ainda existentes no mercado de trabalho. Comparando-se os anos de 2000 e 2016, houve relativa estabilidade na participação feminina no mercado de trabalho da agroindústria sucroenergética, com essa taxa se mantendo entre 7,6% e 8,8% no período[1]. Seguindo a tendência geral dos empregos no setor, o número de mulheres atuando na cadeia aumentou expressivamente entre 2000 e 2008 – período de forte de expansão do setor –, mas recuou, também em grande magnitude, de 2008 em diante – destacando-se o efeito do avanço rápido da mecanização. Em 2016, das quase 795 mil pessoas atuando no setor, cerca de 70 mil eram mulheres.

 

Essa estabilidade de baixa participação feminina no mercado de trabalho da cadeia na análise agregada, no entanto, esconde dinâmicas importantes que são verificadas ao se analisar os elos da cadeia de forma desagregada. Mesmo no período de redução no número de empregos no setor, de 2008 a 2016, houve aumento na quantidade absoluta de mulheres atuando no elo industrial e em cargos administrativos (no mesmo período, o número de homens atuando nesses mesmos elos diminuiu); por outro lado, a diminuição do emprego feminino no campo (-60,3%) foi ainda mais acentuada que a verificada para os homens (-44,4%), também entre 2008 e 2016.

 

Frente a essa tendência, mudou a estrutura do emprego feminino na indústria sucroenergética, com essa passando a se concentrar em maior medida nas áreas industrial e administrativa. A tendência de mudança do perfil dos empregos no setor em direção ao trabalho mais qualificado (maiores níveis de instrução), verificada pelo estudo divulgado pelo Cepea1 para os trabalhadores em geral, foi ainda mais acentuada quando avaliado o mercado de trabalho feminino. Entre 2000 e 2016, diminuiu em 43,2 p.p. a participação de mulheres com até 5 anos de estudo atuando no setor; para os homens, a redução foi de 38,1 p.p. No outro extremo, para o mesmo período, aumentou em 11,8 p.p. a participação de mulheres com mais de 13 anos de estudo; para os homens, o aumento foi de 2,8 p.p.

 

Todas essas mudanças estruturais se refletiram em ganhos reais expressivos no salário médio recebido pelas mulheres que atuam no setor sucroenergético. Entre 2000 e 2008, houve ganho real de 26% no salário médio e, de 2008 a 2016, de expressivos 48% – o que representa um avanço importante na qualidade dos empregos gerados para as mulheres pelo setor.

 

Essa tendência de melhoria da qualidade dos empregos femininos também é verificada no agronegócio como um todo, mas foi mais intensa no setor sucroenergético. Por outro lado, é importante ressaltar que a participação das mulheres na atividade ainda é bastante baixa, comparando-se à média do agronegócio e à média do mercado de trabalho brasileiro[2], e não apresentou evolução significativa nos anos destacados.

 

Outro aspecto que merece atenção é o fato de, apesar do aumento da qualidade técnica e da remuneração das profissionais do setor, ainda há pouca informação sobre as trabalhadoras que que saíram da atividade, menos qualificadas, e que possivelmente tiveram dificuldades de recolocação no mercado. Tais evidências indicam que, mesmo com as melhorias verificadas, ainda há espaço para políticas públicas e iniciativas privadas no sentido de redução destas desigualdades e capacitação de trabalhadoras, face às novas realidades do emprego no campo.

 

           

 

[1] A metodologia para identificação dos trabalhadores do setor e sua desagregação entre os elos da cadeia é a mesma aplicada no estudo divulgado pelo Cepea (aqui), assim como é a mesma a base de dados utilizada, da Relação Anual de Informações Sociais (RAIS), disponibilizada pelo Ministério do Trabalho e Emprego (MTE).

[2]  Em 2015 a participação feminina nas ocupações do agronegócio foi cerca de 28%, já no mercado de trabalho brasileiro foi de 40%, considerando-se, nestes casos, o mercado formal e informal. (https://www.cepea.esalq.usp.br/upload/kceditor/files/Mulheres%20no%20agro_FINAL.pdf)

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