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"O combate às perdas é uma decisão técnico-econômica"

Essas foram as sábias palavras do coordenador do Cepea, Prof. Dr. Geraldo Sant’Ana de Camargo Barros, em entrevista à Revista Hortifruti Brasil, em agosto de 2017, quando avaliava as perdas no setor de frutas e hortaliças. “O grau de perdas observado resulta das características do produto, da tecnologia utilizada na comercialização e, também, do cálculo econômico dos agentes de comercialização. O custo de zerar as perdas com certeza é proibitivo. Pode ser mais econômico um menor esforço no controle de perdas.” Barros alertou também que é necessário certo cuidado ao associar superficialmente a ocorrência de perdas à ineficiência da cadeia.

 

A visão de ineficiência da cadeia para o combate das perdas é muito atrelada a questões técnicas na produção, no pós-colheita, nas dificuldades de armazenamento, na embalagem ineficaz e nas estruturas de comercialização deficientes.

 

Essa visão é importante, mas não permite uma avaliação mais completa sobre a avaliação das perdas. Uma forma interessante para avaliar esse tema é tratá-lo como uma externalidade negativa da cadeia, que ocorre quando os agentes econômicos interagem no mercado, gerando malefícios para indivíduos alheios ao processo. A poluição do ar e o lixo são exemplos de externalidades negativas. Por essa ótica, as perdas de alimentos na cadeia de produção de alimentos resultam não só preços mais elevados ao consumidor final e uma oferta mais restrita como também um aumento do impacto ambiental, já que houve o uso de recursos para uma produção excedente que não será consumida.

 

O Prof. Stuart Wayne Mounter, da University of New England (Austrália), e outros pesquisadores dessa universidade usam o conceito de externalidade para o desperdício de alimentos. No geral, os autores avaliam que o setor produtivo tem que produzir mais para cobrir todas as incertezas, riscos e exigências da cadeia de produção e comercialização dos alimentos. Sem incertezas, os participantes da cadeia teriam conhecimento perfeito de quanto de cada tipo, grau e qualidade do alimento seria demandado e isso reduziria muito as perdas/desperdícios dos alimentos.

 

Os autores australianos, bem como o Prof. Geraldo Barros, expõem um ponto importante nos esforços em reduzir o desperdício de alimentos, que terão custos e benefícios para os agentes da cadeia. Assim, a solução da redução de desperdícios ocorrerá até que os benefícios desses esforços se igualem aos custos. Este ponto leva à discussão de que há um nível ótimo de combate às perdas dentro do ambiente privado.

 

Numa perspectiva de avaliação econômica no combate às perdas, é importante o processo de inovação contra desperdícios com tecnologias econômicas ao produtor e aos agentes de comercialização. Além disso, a integração produtor e varejo e o equilíbrio entre as exigências na qualidade/produção dos alimentos, além do maior fluxo de informação, também são ações importantes em prol da redução das perdas/desperdícios, pois diminuem as incertezas e as assimetrias no processo de comercialização.

 

No entanto, a solução privada, por essa ótica econômica, não consegue reduzir todos os efeitos colaterais do desperdício de alimentos, minimizando o custo social, ou seja, o total de custos para a sociedade em geral. As ações públicas-privadas e/ou governamentais são importantes, desde que não aumentem demasiadamente os custos, reduzindo a oferta e aumentando os preços excessivamente os preços ao consumidor ou, no extremo, inviabilizem economicamente o processo produtivo, resultando na cessação da produção. Programas como o banco de alimentos, a promoção de frutas e hortaliças fora do padrão, a regulamentação do padrão dos alimentos e de seu processo produtivo, entre outros, podem minimizar esse “custo social” produzido pelo desperdício. Haverá, então, um volume ótimo de perdas, que poderá ser reduzido à medida que mais informação e tecnologia forem geradas e disponibilizadas aos agentes econômicos. 

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