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O crescimento do agronegócio realmente tem se refletido em maior renda para agentes do setor?

Nos últimos anos, o agronegócio tem assumido uma merecida posição de destaque no debate econômico e nas grandes pautas de discussão no Brasil, com ampla repercussão midiática. O setor vem ganhando os holofotes, devido às suas capacidades de expansão de produtividade e produção e de geração de oportunidades de emprego em várias regiões, mesmo em um momento em que a economia do País vive uma situação extremamente delicada, com recessão e crises político/institucionais persistentes, que vêm afetando seu crescimento e desenvolvimento.

 

Em 2017, o PIB Brasileiro (IBGE) cresceu 1%, enquanto o PIB-volume do Agronegócio, calculado pelo Cepea/CNA, aumentou 7,2% – impulsionado pela produção recorde “dentro da porteira”, pela importante recuperação agroindustrial e pelo consequente “transbordamento” desses crescimentos sobre o setor de serviços. Especificamente sobre a agropecuária (segmento primário do agronegócio), dados da Conab indicam que, entre as safras 1990/1991 e 2016/2017, a produção brasileira de grãos aumentou 310%, com expressiva elevação média anual de 5,37%, atingindo recorde histórico de 237,7 milhões de toneladas na última safra.  

 

Com esse bom desempenho, nas últimas décadas, a agropecuária e o agronegócio puderam contribuir significativamente com a economia brasileira sob diferentes aspectos, de alguma forma retornando à sociedade os investimentos públicos direcionados ao setor. A forte expansão da produção brasileira se traduziu em elevada disponibilidade de alimentos, fibras e energia, garantindo o abastecimento interno e ainda um crescente volume de exportação.

 

Pela ótica do mercado interno, a produção crescente a preços decrescentes foi um fator relevante na estabilidade de preços e controle da inflação, influindo em melhor distribuição de renda e redução da pobreza no País. Quanto ao mercado externo, as exportações do agronegócio têm garantido a geração de divisas e amenizado resultados deficitários de outros setores. Segundo dados do Mapa (2018), as exportações do agronegócio representaram 41% do total embarcado pelo Brasil entre 1997 e 2017.

 

Em uma análise simplista, estes dados positivos, que indicam o sucesso do agronegócio brasileiro, recorrentemente também são interpretados como de uma forte elevação de ganhos financeiros de agentes ligados ao setor. Porém, a realidade do agronegócio é complexa, e as inferências sobre a evolução de sua renda real requerem um olhar mais aprofundado.

 

A nova metodologia do PIB do Agronegócio desenvolvida pelo Cepea, em uso desde 2017, permite avaliar o crescimento do PIB do setor por diferentes óticas. Especificamente, as variações do PIB-renda – que se traduzem na evolução da renda real dos agentes do agronegócio – agora são decompostas em variações de volume (PIB-volume) e de preços relativos (indicador que compara os preços do agronegócio com os do restante da economia brasileira).

 

Pela ótica da produção, a análise destes dados para os últimos 22 anos (de 1996 a 2017) mostra que o PIB-volume do agronegócio cresceu 49,4% (1,84% a.a.). Por outro lado, os preços do agronegócio (deflator) se desvalorizaram 36,2% frente ao deflator do PIB brasileiro. Isso quer dizer que os preços da produção do agronegócio cresceram, em média, 2,02% a menos que a média geral da inflação brasileira ao ano (medida pelo deflator nacional) – indicando uma desvalorização da produção do setor. Nesse cenário, mesmo com produção em importante expansão, com recordes sucessivos de safras e crescente produção pecuária, o sucesso do agronegócio não se refletiu, na mesma dimensão, em ganho de renda real para os seus agentes. Pelo contrário, de 1996 a 2017, o PIB-renda do agronegócio acumulou retração, de 4,7%.

 

Pesaram nesse resultado não apenas os preços dos produtos do agronegócio, mas também os custos de seu consumo intermediário (que, de forma conjunta, determinam a evolução do deflator). A pressão de custos geralmente afeta, sobretudo, o segmento primário, ou seja, produtores rurais “dentro da porteira”, que normalmente se defrontam com menores margens de agregação de valor. E, nos últimos anos, preços de produtos importantes na produção (insumos) – como fertilizantes e defensivos (devido à dependência de importações) e o óleo diesel (impactado por políticas públicas instáveis) – apresentaram grande volatilidade.

 

Somado a este cenário, o agronegócio se defronta agora com mais uma preocupação importante, relacionada ao possível impacto no setor da política de tabelamento de fretes, instituída pelo governo federal em resposta à crise oriunda da greve dos caminhoneiros, ocorrida em maio. Segundo cálculos do Cepea, com base nas matrizes insumo-produto do IBGE, o agronegócio é o setor mais vulnerável da economia brasileira à possibilidade de elevação e ineficiências na precificação dos fretes, dado que consome cerca de 42% de todos os serviços de transporte do País.

 

Diante do exposto, reforça-se que interpretações que avaliam como crescente a renda apropriada pelos agentes do agronegócio são, por vezes, equivocadas e destoantes da complexa realidade do setor. Mais importante, a influência dessas distorções sobre a elaboração de políticas públicas pode levar ao direcionamento enviesado e errático dos esforços e políticas setoriais, com consequências indesejáveis para o setor e para a economia e a sociedade como um todo. A persistência de pressão sobre a renda e a elevação de custos no agronegócio podem vir a gerar, no futuro, uma diminuição de investimentos no setor e repasses de novos custos e de uma possível mudança negativa na oferta de produtos a preços ao consumidor final. Isso certamente impactaria no bem-estar da população, notadamente a mais pobre, que destina grande parte de sua renda ao consumo de alimentos.

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