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O desafio de prospectar mercados externos promissores, mas pouco conhecidos do Brasil

Os resultados da balança comercial brasileira, divulgados pelo Ministério da Indústria, Comércio Exterior e Serviços, no início de maio, foram positivos para o País. No acumulado deste ano, até abril, o superávit foi de US$ 6,1 bilhões e, apesar de inferior ao do mesmo período de 2017, ainda pode ser visto com otimismo.

 

No primeiro quadrimestre de 2017, o desempenho havia se beneficiado da safra recorde de soja e de condições mais ajustadas de oferta e demanda de açúcar, o que não se verifica neste ano. De fato, choques internos ou externos nos mercados das commodities agropecuárias têm peso suficiente para afetar os resultados da balança comercial total brasileira. Considerando-se os principais produtos agroindustriais vendidos no exterior – complexos soja e carnes, açúcar e etanol, frutas e sucos, café, papel e celulose, fumo, pescados, mel, leite e derivados –, o agronegócio respondeu, naquele ano, por cerca de 33,5% da pauta nacional exportadora.

 

As estatísticas publicadas recentemente sinalizam otimismo. O relatório estatístico da Organização Mundial do Comércio (OMC), publicado em abril, indica que as exportações brasileiras cresceram acima da média mundial em 2017: 4,7% no ano, em termos reais e 10,6%, em valor monetário. Considerando-se essa mesma unidade, as vendas externas do Brasil aumentaram, nesse mesmo ano, 17,5%, isso após registrarem cinco anos consecutivos de queda. O mesmo relatório continua apontando que, apesar de excepcional exportador de commodities agrícolas e minerais, a participação brasileira no montante mundial ainda é bastante baixa, em 1,23% nas exportações totais. Essa é uma parcela pouco representativa quando se leva em conta o papel que o Brasil tem no abastecimento de alimentos, como um dos principais exportadores de carne bovina, suína e de frango, soja, açúcar, café e milho. No entanto, é resultado de uma performance ainda muito tímida no mercado de produtos industrializados, de alto valor agregado.

 

O relatório da OMC ressalta que a safra agrícola recorde em 2017 e os resultados dos acordos automotivos firmados pelo Brasil nesse ano foram fatores que contribuíram para que o País apresentasse uma taxa de crescimento das exportações acima da média global, principalmente ao se considerar os 30 maiores players mundiais. Dentre os países com variação das receitas de exportação acima do índice da variação brasileira, destacam-se alguns dos mais importantes parceiros comerciais nacionais – Rússia (25,8%), Vietnã (21,4%), Emirados Árabes Unidos (20,4%) e Arábia Saudita (18,8%).

 

O acompanhamento das estatísticas de comércio, aliado a outros conhecimentos, é relevante no contexto de planejamento estratégico no âmbito de uma política industrial e, consequentemente, do delineamento da política de relações internacionais. Examinando um horizonte mais longo de evolução das exportações, por exemplo, desde 2001, quando a China se integra à OMC, configurando-se em uma das principais parceiras comerciais de muitos países centrais, notam-se elementos interessantes no desempenho brasileiro. Mesmo durante e nos períodos subsequentes à crise financeira de 2008, agravada pela crise política interna dos últimos anos, o desempenho comercial do Brasil manteve sua tendência ascendente. Nos últimos 16 anos, a taxa de crescimento das exportações totais brasileiras foi de 8,6% ao ano, em valores FOB. Sem dúvida, grande mérito na manutenção dessa taxa de crescimento decorre das vendas externas de commodities para a China. Estas vendas, associadas às destinadas para Hong Kong e Macau, cresceram 21% ao ano, durantes os 16 anos. De certo, esse resultado não é surpresa.

 

Por outro lado, algumas surpresas emergem da comparação das taxas de crescimento das exportações do Brasil para parceiros comerciais tradicionais vis-à-vis outros países ou blocos destinatários que, no geral, são menos visados pelos analistas. Tomando-se o período de 2001 a 2017, as taxas de crescimento das exportações brasileiras para os mercados tradicionais da União Europeia, Estados Unidos, Japão e do Mercosul foi, respectivamente, 5,2%, 4,1%, 6,3% e 8,2% ao ano. Já as taxas para mercados menos reconhecidos, alguns dos quais há anos vêm evoluindo favoravelmente, foram mais elevadas. Destaca-se, ilustrativamente, o crescimento das exportações brasileiras para os países da Liga Árabe, cuja taxa naquele período alcançou 11,9% ao ano e, para os membros da Comunidade Andina, 10,6% ao ano.

 

Evidentemente que, embora a magnitude de suas importações não seja equivalente ao tamanho atual dos mercados tradicionais para o Brasil, ainda é preciso que as estratégias futuras de governo e empresas atentem-se ao melhor conhecimento desses mercados, à prospecção das oportunidades e ao desmantelamento de eventuais barreiras ao comércio. Em outras palavras, em 2017, a União Europeia respondeu por 16% das exportações do Brasil e os EUA, por 12,3%, enquanto os países da Liga Árabe responderam por somente 6,2%. De modo que, em termos absolutos, o crescimento mais modesto nos países tradicionais parceiros comerciais, ao final, pode representar uma receita cambial mais significativa para o Brasil. Por outro lado, parece haver oportunidades amplas a serem fomentadas em mercados menos tradicionais. A título de comparação, a parcela do Mercosul como destinatário de produtos brasileiros foi de apenas 10,4%.

 

Informações disponibilizadas pela Apex-Brasil sobre mercados potenciais e estratégicos para as exportações evidenciam que, mesmo nos países em que os produtos brasileiros já estão presentes, nota-se, ainda, um potencial de inserção e/ou inclusão em produtos agroindustriais e em produtos da indústria de transporte, que abrange desde automóveis e ônibus até aviões.

 

Há alguns anos, o governo brasileiro adota estratégias para fomentar a inclusão de novas empresas no rol das exportadoras (e importadoras), buscando facilitar os procedimentos e para reduzir a assimetria de informações, aprimorando as bases de dados e informações (Radar Comercial, por exemplo), promovendo a participação em feiras e missões, o fomento à participação do setor privado em feiras e missões oficiais, evidenciando a preocupação com a prospecção – como o que fica claro ao se restabelecerem as figuras dos adidos agrícolas em algumas embaixadas estratégicas. Isso tudo, no conjunto, é sinal da preocupação nascente com a mudança da cultura comercial do País.

 

Por outro lado, ao mesmo tempo em que se identificam esses potenciais e estimulam-se os agentes privados, a negociação de acordos comerciais e de cooperação ainda avança lentamente. O setor privado depende também de gestões diretas do governo na negociação de acordos de acesso a mercados. Nesse sentido, ao se buscar o número de acordos bilaterais em vigor, e em negociação, verifica-se um desempenho ainda singelo nessa área. Em especial, os acordos que passam pela negociação de concessões para acesso a mercados, e que devem ser negociados em conjunto, pelo Mercosul, devido aos compromissos vinculados à formação da União Aduaneira dos quatro países membros, o que, para alguns analistas, dificulta ainda mais os avanços.

 

Em verdade, conforme informações do sítio do Ministério de Relações Exteriores (MRE), desde sua criação, o Mercosul concluiu acordos comerciais com a Índia (2004), Israel (2007), União Aduaneira da África Austral – SACU (2009), Egito (2010) e Palestina (2011, em processo de ratificação); além de Acordos-Quadro, etapa que antecede a negociação de um acordo comercial, com a Tunísia, Líbano e Marrocos.

 

Em andamento, registram-se os estudos para ampliação do acordo Mercosul – Índia, Mercosul – Canadá, cujo interesse seria um acordo de livre comércio; Mercosul-Japão, em estágio de discussão de estudos para lançamento de um acordo comercial; Mercosul – Associação Europeia de Livre Comércio (EFTA); e Mercosul-Coreia do Sul, para o qual, em julho de 2016 foram lançadas algumas posições negociadoras, e aguardam-se manifestações do setor privado. Estas iniciativas decorrem dos diálogos econômico-comerciais, que constituem mecanismos para examinar o interesse mútuo e a possibilidade de negociação de acordos de livre comércio entre as partes.

 

Esses países mencionados nos acordos, já em vigor ou sob negociação, têm sido identificados nos diagnósticos como parceiros estratégicos e, como foi mencionado, muitos deles apresentam taxas de crescimento como importadores do Brasil muitas vezes mais promissoras do que as registradas nos mercados tradicionais. No entanto, há muito ainda a conhecer e prospectar sobre esses países, seus hábitos alimentares, organização das empresas, estruturas produtivas e cultura comercial, por exemplo. Este tipo de informação é essencial para a definição de estratégias sustentáveis para manter a competitividade brasileira no mercado internacional e, preferencialmente, avançando cada vez mais na comercialização de produtos de alto valor agregado, como os próprios equipamentos de transporte, mas também em produtos de maior valor do agronegócio, como os cafés processados e produtos de confeitaria.

 

O foco deste artigo limitou-se às exportações, mas é certo que esta é uma visão unívoca que limita uma ampla análise estratégica destes temas. O Brasil adquire quantidades relevantes de bens com alto componente tecnológico, bens de capital, recursos energéticos e insumos para a agropecuária, essenciais para manter a produtividade em setores competitivos e exportadores brasileiros. Diante disso, é importante que a prospecção e a escolha dos parceiros prioritários deve também atentar para a relação biunívoca, exportação-importação de equilíbrio entre parceiros e tratar, com a devida relevância estratégica, a necessidade de ter acesso mais barato aos combustíveis, tecnologias e bens de consumo duráveis de qualidade superior.

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