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Os desafios na cadeia produtiva da mandioca no Brasil

A mandioca é um importante produto da agricultura brasileira. Além de ser base da alimentação para parte expressiva da população, a raiz é matéria-prima para a agroindústria e os diferentes tipos de farinha produzidos no Brasil são fontes de renda para muitas famílias. A fécula (amido) e outros amidos modificados têm seu uso em diversos segmentos, desde o alimentício até os com maior tecnologia empregada, caso das indústrias química, siderúrgica, petrolífera, dentre outros. Apesar dessas características positivas, há entraves ao longo de toda a cadeia produtiva da mandioca e superá-los é a agenda do dia.

 

Dados da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e Agricultura (FAO) indicam que, até 2011, o Brasil destacava-se como o segundo maior produtor mundial de mandioca, com total de 25,3 milhões de toneladas. Para 2017, a FAO indica recuo na produção brasileira de mandioca, para 20,1 milhões de toneladas, o que deixaria o País em quarto lugar entre os maiores produtores do mundo, sendo superado por Nigéria, Tailândia e Indonésia.

 

Ainda de acordo com dados da FAO (2018), entre 1997 e 2016, a produtividade média da mandioca no Brasil teve crescimento de 0,7% ao ano, enquanto que, no mesmo período, na Tailândia – principal produtor e exportador mundial de fécula de mandioca –, o acréscimo anual foi de 2,1%. O crescimento da produção brasileira nos últimos 20 anos foi de apenas 0,5% ao ano, enquanto que, no país asiático, foi de 4%. As mudanças na Tailândia foram resultado de maciços investimentos em pesquisas públicas e privadas, especialmente para desenvolver variedades adaptadas às condições de clima e de solo daquele país.

 

Um dos grandes desafios no Brasil é, portanto, aumentar a produtividade agrícola, que ainda tem grande disparidade, especialmente quando são comparados os estados do Norte/Nordeste com os do Centro-Sul. Neste sentido, o desenvolvimento de novas variedades é essencial, e isso se dá somente por meio de investimentos em pesquisa e desenvolvimento.

 

Parte deste caminho já foi trilhado pelas iniciativas da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), do Instituto Agronômico de Campinas (IAC), Instituto Agronômico do Paraná (Iapar), entre outros. Outros avanços também têm sido realizados em parte pela iniciativa privada, por meio da Associação Brasileira dos Produtores de Amido de Mandioca (Abam), que tem investido na diminuição dos custos, especialmente da colheita, na busca por mecanização.

 

A depender do mercado e considerando-se a falta de barreiras à entrada, a área ocupada com a mandioca varia ao longo dos anos, ocasionando fortes oscilações na produção e nos preços. Dados do Cepea apontam que o preço médio da tonelada de mandioca no ano passado superou em 48,9% a média de 2016 e em 191% a de 2015, em termos reais (valores foram deflacionados pelo IGP-DI). Este comportamento das cotações pode conduzir à perda de competitividade dos produtos derivados frente a amidos substitutos. A melhora na coordenação ao longo da cadeia produtiva poderia minimizar este problema.

 

FÉCULA – Mesmo com recentes quedas na produção de raízes, o Brasil ainda figura entre os maiores produtores mundiais, mas a produção de fécula é baixa, principalmente quando se compara com os países asiáticos, que figuram entre os maiores exportadores do produto. Enquanto foram produzidas 3,2 milhões de toneladas de fécula de mandioca na Tailândia em 2016, a produção brasileira no mesmo período foi de 616,2 mil toneladas, de acordo com levantamento mais recente do Cepea.

 

O Censo da indústria brasileira de fécula, elaborado pelo Cepea, indica que, com a capacidade instalada desta indústria no Brasil, seria possível alcançar produção próxima a 1,5 milhão de toneladas, evidenciando que este elo tem forte ociosidade. Isso corrobora a perda de competitividade frente a amidos substitutos, especialmente o de milho, que tem sido utilizado nos principais segmentos industriais, como a indústria de papel, química e de amidos modificados.

 

É certo que os próximos anos serão de grandes desafios para toda a cadeia produtiva, o que tem mobilizado todos os elos envolvidos (produtores, industriais, pesquisadores e dirigentes de entidades de classe) na busca por soluções, que paulatinamente vêm sendo encontradas. Porém, os resultados devem ocorrer no longo prazo e certamente devem manter o setor em lugar de destaque no cenário do agronegócio nacional.

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