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Pecuária brasileira: caminhos para a saída da crise

A pecuária bovina de corte registrou significativa evolução no decorrer dos 30 anos em que o Cepea realiza pesquisa aplicada nesse setor. No início, como o País vivia o ambiente de “hiperinflação”, decorrente do descontrole fiscal e monetário, os agentes econômicos buscavam ativos para usar como reserva para suas economias. No meio agro, o boi e suas categorias – bezerro, garrote, boi magro etc. – eram os preferidos, ao lado do café. Com a estabilidade econômica, os produtores passaram a se profissionalizar na atividade e tratar a produção de boi como investimento, que demanda planejamento refinado. O segmento industrial também iniciou uma nova fase nessa época. A compreensão do sistema pecuário pelo Cepea decorre da interação com todos os elos da cadeia produtiva, bem como de sua inserção no ambiente internacional. Entretanto, deve-se analisar dois elos fundamentais: dentro da porteira e indústria processadora.

 

Durante muitas décadas, a pecuária cedeu suas terras mais férteis e com melhor infraestrutura às atividades agrícolas, cujo valor gerado por unidade de área era maior. A cria foi vista, injustamente, como a grande culpada pelo desmatamento de áreas. Porém, a nova consciência e a força dos mercados externos em especial – muito mais que mudanças de postura de governos e governantes – reverteu essa visão. Com isso, ocorre o “surto” modernizador da cria. Em 2003, pesquisas do Cepea, em parceria com a CNA (Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil), mostravam que eram necessários cerca de 250 hectares para manter 100 vacas. Essas vacas geravam 45 bezerros, cada um com 170 kg de peso vivo. Em 2016, por outro lado, 100 vacas ocupavam 140 ha e produziam 65 bezerros de 200 kg. Apesar de estar muito longe de atingir seu máximo, a produtividade/ha cresceu 283% e por vaca, 172%, devido a um enorme investimento do produtor para atingir esse resultado.

 

Há, ainda, a recria e a engorda. Em 2010, segundo dados do Indea/MT, menos de 5% dos animais abatidos tinham menos de dois anos, e mais de 55%, acima de três anos. Hoje, cerca de 15% têm menos de dois anos e 25%, mais de três anos. Combinando isso com dados do Cepea de peso ao abate, tem-se que eram animais de 16,5 arrobas em 2010 – hoje, têm 17,4 arrobas. Os dados mostram que a produtividade por área e por animal cresceu significativamente, mas ainda existe espaço para ganhos. A combinação disso tudo explica porque produzir boi no Brasil atrai tantos investidores mundo afora.

 

O nascimento da indústria brasileira da carne bovina se deu pelos peronistas na Argentina, que enxergaram no Brasil uma ótima fonte de carne e possibilidades de bons negócios. Dessa forma, Armour, Anglo, Swift e Wilson se instalaram no País e trouxeram consigo os conceitos sanitários internacionais, que foram adotados pelo governo brasileiro. Entretanto, empresas internacionais saíram do Brasil devido à autossuficiência europeia e à melhoria da produtividade da Austrália no final da década de 1960. Neste período, o cenário da pecuária brasileira era de empresas mal organizadas, mercado clandestino e ingerência do governo, ora tabelando os preços da carne ora fazendo estoques reguladores e, ainda, por vezes, suspendendo as exportações.

 

Apenas em 1994, com a estabilidade da economia, nasce a nova indústria da carne. No período, empresas acostumadas com os ganhos financeiros decorrentes da inflação fecharam as portas. O capital internacional começou a observar que estava aí um outro bom setor para receber investimentos. Desse novo ciclo nasceram empresas com várias plantas e começaram as organizações de mesas de operação para racionalizar as compras e a gestão dos riscos de preços. Enfim, a indústria da carne cresceu, se profissionalizou e apareceu. No entanto, em 2008, o governo passa a intervir de forma mais direta na oferta de capital das empresas. A formação dos “campeões nacionais” criou uma nova estrutura industrial para a carne. Em 2005, o País contava com sete grupos que abatiam mais de 3 mil animais por dia e, em conjunto, respondiam por cerca de 25% do total do abate com fiscalização sanitária federal do País. Em 2016, restaram três grupos, com cerca de 50% da capacidade de abate.

 

O maior risco que a atividade pecuária tem hoje é de retrocesso dentro da porteira. Os ganhos de produtividade foram obtidos em anos, com enormes dificuldades, e cortes de investimentos podem desestruturar todo o sistema. No verão de 2013/2014, devido às altas temperaturas e à falta de chuvas no Centro-Sul do Brasil, as carcaças colocadas no mercado em 2014 estavam mais leves. No Brasil, as vacas parem preferencialmente no “início das águas”, pois aproveitam a recuperação das pastagens. A seca afetou a qualidade e a quantidade de bezerros que entrariam no mercado em 2014, mantendo os preços elevados. Como essas vacas não se recuperaram do parto, também tiveram taxa de “prenhez” menor, com baixa oferta de bezerros em 2015 e de boi em 2016.

 

O esperado para 2017 era a retomada da oferta dentro da normalidade e a maturação dos investimentos e retenções de fêmeas. Entretanto, o inesperado ficou por conta de uma sequência de fatos externos ao setor. Primeiro, um caso de corrupção da fiscalização sanitária abala a credibilidade deste serviço, gerando prejuízos tanto no mercado interno quanto no externo. Depois veio a “questão JBS/Temer”, que fez com que a maior indústria reduzisse drasticamente os abates. O excesso de oferta faz o preço da arroba cair bastante e, por outro lado, a falta de alternativas à carne brasileira eleva as cotações internacionais da carne bovina. Como sair dessa situação?  A desestruturação da cadeia da carne bovina leva consigo todo o setor de proteína animal.

 

O processo de saída para a crise atual será lento, mas decisões erradas podem causar um desequilíbrio enorme no setor e “jogar” a pecuária num atraso de 10 anos. Mais da metade do abate de bovinos sob fiscalização federal está distribuída em pequenas e médias empresas, que podem representar uma saída para vários problemas causados por decisões erradas do passado. Colocar plantas fechadas em funcionamento é interessante, mas é preciso saber como irão distribuir a carne. A abertura de mercados não é feita do dia para noite. Para iniciar um novo ciclo de investimentos no setor industrial é preciso passar por um processo de conquista da confiança perdida, com transparência e referências de sustentabilidade econômica, produtiva, socioambiental dessas empresas. Também seria interessante criar horizontes de seguro de preços mais longos usando o mercado futuro. Atrair fundos de investimento nacionais e internacionais para o mercado futuro de boi é uma forma de oferecer ao investidor de dentro da porteira mais visão de futuro para seus investimentos. O setor público pode auxiliar muito se investir no sistema de defesa sanitária, mas repensar na estrutura, oferecendo mais autonomia, com decisões técnicas e totalmente despolitizadas.

 

A pecuária bovina é um dos grandes pilares econômicos do Brasil, empregando mais de 1,5 milhão de pessoas dentro da porteira. Oferece carne de qualidade a preços acessíveis para um País de 207 milhões de habitantes e gera excedentes exportáveis que chegam a mais de 170 países. Enfim, a pecuária bovina de corte demanda profissionalismo e inteligência na solução de seus problemas.  

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