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Risco de cultivo da segunda safra reduz uso da área no Sul do Brasil

Há alguns anos temos elaborado estudos que ajudam a entender o uso do solo pelos agricultores brasileiros, especialmente em um contexto de lavouras temporárias – vide, por exemplo, “O DESAFIO DA INTENSIFICAÇÃO DO USO DO SOLO”, quando foram apresentados dados sobre área e produção de primeira e segunda safras. Há alguns fatos que chamam a atenção, como a expressividade da área com cultivo de lavouras não comerciais na segunda safra, o que parece não fazer sentido para quem “olha” de fora.

 

No geral, produtores realizam pelo menos um cultivo por ano, sendo que muito se fala sobre produtores que já conseguem até três safras no mesmo período ou, pelo menos, cinco safras a cada dois anos. Há necessidade de irrigação em muitos casos, ou a integração lavoura-pecuária para a viabilização de sistemas desta natureza.

 

O foco desta análise está no Sul do Brasil, em especial no Rio Grande do Sul, em que produtores optam pelo semeio apenas de lavouras que visam uma cobertura verde na segunda safra, ou seja, sem foco comercial. Certamente há questões de riscos envolvidas, pois, caso contrário, produtores buscariam culturas comerciais para elevar a margem de lucro e a receita líquida na propriedade.

 

Considerando-se informações do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatísticas (IBGE) e da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab), apenas no Rio Grande do Sul, são cultivados anualmente cerca de 8,6 milhões de hectares com as principais culturas temporárias. Deste total, entre 2017 e 2019, 87,5% foram cultivos de primeira safra e apenas 12,5%, de segunda safra. Na primeira, são destaques as culturas da soja (65% da área total), do arroz (23%) e do milho primeira safra (9%). Na segunda safra, apenas trigo (8,5%) e aveia (3%) se mostraram como principais cultivos.

 

Tomando-se como referência a média dos últimos três anos, cerca de 14,3% da área de primeira safra foi utilizada com cultura comercial na segunda temporada. Caso seja desconsiderada a área de arroz, cujo sistema não permite uma segunda safra, a área de inverno foi equivalente a 16,6% das áreas das culturas de verão.

 

Em um país que necessita, por exemplo, importar mais da metade do trigo que consome, chama a atenção o fato de que, no Rio Grande do Sul, a área plantada com esse cereal representou apenas 12,6% da de soja entre 2017 e 2019. Produtores certamente não deixam a área sem nenhuma cultura, mas optam por cultivar as chamadas lavouras de cobertura que, na prática, apenas geram custos, sem nenhuma receita. Portanto, será que o risco do cultivo de trigo realmente é tão elevado que a receita não compensa os investimentos?

 

Vale destacar que os riscos na agropecuária já foram tratados em outros textos da coluna Opinião Cepea, como em “O DESAFIO DO GERENCIAMENTO DE RISCO NA AGROPECUÁRIA” e em “MEDINDO A INCERTEZA: O RISCO DA PRODUÇÃO RURAL”. Aqui, serão citadas algumas informações que envolvem os riscos de produção e de comercialização, especialmente para culturas de segunda safra no Rio Grande do Sul.

 

Dentre as análises que foram elaboradas na dissertação de Gabriel Diniz Faleiros (2019), em fase de defesa na Esalq/USP, sob nossa orientação no Mestrado em Administração da Esalq, destacam-se aquelas que mostram a grande probabilidade de margens brutas negativas na cultura do trigo, em especial no Rio Grande do Sul. Segundo os cálculos, há probabilidade de margens negativas entre 71% e 78% sobre os custos operacionais. Assim, caso custos fixos sejam acrescentados, as probabilidades de perdas são ainda mais expressivas.

 

A cultura do trigo tem alto risco de produção devido às condições edafoclimáticas. Mesmo em final de ciclo, o clima pode impactar negativamente a quantidade e a qualidade da produção. Além disso, os preços podem oscilar de forma intensa e dependem também da paridade de importação.

 

A alternativa de cultivo de aveia na segunda safra também tem alta probabilidade de margens negativas no Rio Grande do Sul, se aproximando de 70%, quando se tomam como base dados para a região de Tupanciretã. Portanto, muito próximo do observado para o trigo.

 

Esses aspectos realçam alguns aspectos importantes. A opção dos produtores no Rio Grande do Sul de não cultivar lavouras comerciais na segunda safra certamente tem relação com o risco de perdas financeiras, apesar de não mensuradas pela quase totalidade dos produtores. Ao não obter receita por uma segunda cultura, a primeira safra acaba tendo custo total elevado, pois absorverá uma parcela maior dos custos fixos e de oportunidade. Isto afetará ainda mais a capacidade de investimentos da fazenda como um todo.

 

No Rio Grande do Sul, o clima tem correlação com as oscilações expressivas de produtividade das lavouras de primeira e de segunda safras ao longo dos anos. Para a primeira, a escassez hídrica é o que mais impacta, como está se observando nesta temporada. Já na segunda, chuvas em excesso ou mesmo geadas afetam os rendimentos de culturas, como o trigo. Para esse cereal, também se destaca menor liquidez ao longo dos anos, o que pressiona as cotações. Para amenizar a situação, cooperativas estão buscando na exportação uma alternativa de escoamento.

 

Como já tratado em “ARROZ E TRIGO: RELAÇÕES DE VALORES AGRÍCOLAS E INDUSTRIAIS”, ainda há necessidade de o governo definir políticas públicas para as culturas de inverno, com foco no trigo, visando a sustentabilidade do produtor e, por que não, a menor dependência das importações. Talvez as dificuldades da implementação de uma política de incentivo mais direto também estejam relacionadas aos lobbies dos setores industriais e de produtores, que tendem a caminhar em sentidos opostos.

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